Wednesday, May 29, 2013

Insônia




Acabou-se a fumaça
E a falta do fogo trouxe o frio
O frio sozinho na madrugada
E não há mais emoção para ser procurada

Acabou-se a gasolina
E a falta do carro trouxe o tédio
O tédio sozinho na madrugada
E não há mais emoção para ser procurada

Acabou-se o motivo
E a falta de motivo trouxe a inércia
A inércia sozinha na madrugada
E não há como sobreviver ao nada

Acabou-se o revide
E a falta de revide trouxe a decadência
A decadência sozinha na madrugada
E não há como sobreviver ao nada

Às duas e meia, não saio mais
Do meu quarto inerte
Livre do motivo, não necessito do revide
E a falta de gasolina não produz a fumaça eficaz

Ligo e desligo a TV mil vezes
Escuto os carros lá fora
Há sinais vermelhos nas ondas verdes

Está quente e meu sono não me pertence
O ventilador gira hora depressa, hora devagar
Na prateleira apenas livros que no momento não interessam
No coração apenas a vontade de voar

Acabou-se tudo
E há falta de tudo para mudar
Eu e a insônia sozinhos na madrugada
Libertando minha mente para viajar

O poeta de bronze



Quem sou eu no meio desta cidade ?
Pessoas que me esbarram sem tempo de se desculpar
Onde o tempo é inimigo de todos
E o mais importante é simplesmente estar lá

Na ponta do meu lápis aponta
Sem o risco da fantasia
Tudo aquilo que queria
E que não soube conquistar
Fico em frangalhos
Ao lembrar dos atos falhos
Que dia a dia cometi
Sem ao menos me desculpar

Quem sou eu no meio desta cidade
Apenas mais um corpo
Em outros corpos a trombar
Apressado, concentrado
Sem Tempo de me desculpar

Fico sábio, já sabia
Sem necessidade de aulas de filosofia
Escrevo, vivo e penso
Consumo do mundo a minha fatia
Misturo a minha pressa
Com a pressa dos demais
Vez por outra tento me desculpar
Mas o corpo trombado há muito ficou para traz

Hoje, na rua da Bahia
Trombo com um corpo que não se mexeu
É o poeta Drumond em bronze
Em uma esquina parado, mais perdido do que eu
Ao poeta me desculpo
Porque na condição de imóvel não ficou para traz
Quem sou eu no meio desta cidade?
Bronze ou carne, tanto fez, tanto faz.

Clube Atlético Mineiro



Ainda que só reste eu na arquibancada
Sozinho irei torcer para o Galo
Provocarei os inimigos
E calarei a boca daqueles que dizem
Que o nosso clube está acabado

Somos torcedores em preto e branco
Gritando, torcendo, vibrando
Incentivando os guerreiros em campo
Não há lugar para outro time no nosso coração
Só quem é Atleticano sabe entender a razão desta paixão

Gritamos, torcemos, cantamos o hino
Trazemos no peito este amor desde menino
As palavras se perdem ao retratar esta paixão
Porque indescritivel é tamanha emoção

Estamos aqui na arquibancada e lá embaixo está o nosso Galo
Correndo, lutando, jogando
Pressionando e abatendo o adversário

Colecionamos vitórias memoráveis
Celebramos títulos incontestáveis
Somos torcedores do Glorioso Atlético Mineiro
Das torcidas somos a maior do mundo inteiro

Quando morrer o último atleticano
Não é sinal que o clube irá acabar
É um sinal dos novos tempos
Onde o futebol mudou de lugar

Que se calem todos os nossos inimigos
E que as tentativas dos adversários vão para fora
Que nossos chutes estufem a todas as redes
Que cada partida seja uma nova vitória

Ainda que só reste eu na arquibancada
Sozinho irei torcer e vencer com o Galo
Assim como Drummond que torceu contra o vento
Que derrotado passou a soprar ao contrário.

A mensagem por Helena



Pude sentir naquele seu abraço
Que lhe deixaria para sempre
E depois daquele dia decidi
Apenas olharei para sempre

E dei as mãos comigo mesmo
Reinventando uma dupla que meu pai falou ainda vivo
"Respeitar os outros é bom
Mas o maior respeito é consigo."

E fui caindo no mundo
Como um cachorro vagabundo
Horas comendo igual rei
Em lugares que nem falar eu sei

Hora também era a todos igual
Desembrulhando um sanduiche maltrapiche
Enquanto o trem não chegava
Ou mesmo a carona que não vinha e me levava

Pois é, caí no mundo assim mesmo
Movido de tristeza por mulher

E fui vendo e conhecendo um monte de outras(...)
E com umas até dormia
Porque muito bem me aparecia
E vivia perfumado
Com aquele cheiro bom que mulher tem
E que deixa na roupa da gente
Quando elas querem que nós é que viramos refém

Pois veio a guerra e encheu a terra de miséria
E vi aquele povo todo gritando
E um montão de jovem se matando
Na maioria das vezes sem nem saber porque estava lutando

Mas tudo acaba nesta vida e a guerra se acabou
Mas deixo desfigurado como uma cicatriz
A chance de toda aquela gente finalmente ser feliz

Depois da guerra eu já não era tão jovem assim
Mas tinha comigo as mesmas coisas
Principalmente aqueles que maltratavam de mim

Já tinha rodado o mundo e ganhado e perdido muito dinheiro
Tinha aprendido de tudo dentro de templo budista e até mesmo nos puteiros
Então já vencido pela idade, percebi que minha vida foi sempre uma falsidade
Porque minha vida mesmo era a jovem moça que deixei escapar na minha cidade

Tomei o trem e o avião
Fui de encontro ao que minha vida inteira batia no meu coração
Quando cheguei na minha cidade, apesar da tenra idade
Já não parecia que a minha bengala me ajudava a firmar os pés no chão

Procurei por Helena, que me disse adeus um dia
E eu bravo, logo iniciei minha partida
Sem saber do sentimento certo daquela minha querida
Na verdade o não dela, não era o que sentia
Era o tal charme de mulher que na ignorância da juventude eu jamais entendia

Bati à porta de Helena, que mais tarde soube eu, nunca mais outro homem abraçou
Cheio de remorso, fui procurar Helena que jamais tinha esquecido
E que pela boca dos outros soube que me amava tanto quanto também

Na sala da casa de interior, um monte de gente com a cara cheia de dor
Nestas obras do destino fui saber que Helena tivera um desatino
E finalmente no céu se estabeleceu
Seu caixão ainda quente, após a despedida de cada parente
Recebeu o meu adeus e depois desceu

Eu já velho sem mais forças pra continuar, me sentei em uma bela varanda
E calmamente esperei que a morte também viesse me buscar
Nessa espera repassei toda a minha vida que apesar de sofrida nada deixou a desejar

Viver eu viveria tudo e da mesma forma se fosse preciso
Mas certamente não partiria sem Helena, o grande amor da minha vida, se pudesse voltar e ter escolhido

Então já que a morte veio me chamar
Eu resolvi escrever este texto como forma de alguma pessoa eu alertar
Nunca fuja do seu amor e nunca saia de perto de onde ele está
Passará a vida vagando e procurando e em nenhum momento a felicidade você vai encontrar

Deste jeito vou seguindo e sinto o ultimo suspiro da minha alma saindo
Vou em busca de Helena para tentar fazer tudo de novo de forma diferente
E se conseguir eu volto e escrevo outra história
Só que desta vez muito mais feliz e muito mais contente.