Thursday, September 05, 2013

Doutora (Japgata)

Estava em suspense
Pois nunca havia visto algo tão belo
Você e seus olhos lindos
Beleza que deixa me cego

Estava em suspensão
Pois nunca havia provado tal sabor
Você e seus lábios desenhados
Gosto que me deixa sem dor

Estava em um hospital
Onde poucas vezes havia estado
Você surgiu naquela sala
Presença que me deixou paralisado

Lembro como se fosse hoje
Desejo como se fosse agora
Sinto como se fosse real
Enlouqueço como se fosse normal

Estava enfim em paz
Pois realizei no que havia conquistado
Você e seu par de olhos puxados
A doutora que tinha me curado

Tuesday, September 03, 2013

Heraclion

Eu sabia que a água subiria
E eu via
Dia a dia
Corri, tentei falar
Mas nada aconteceu
Como sempre foi
Eles construíam
E eram gigantescas
Leões e portais
Figuras místicas em nosso cais

De um lado o inimigo era o deserto
De outro a ameaça era o mar
Mas eles não desconfiavam
Acreditaram no céu
Que nada tinha a contar

E fizeram pisos de ouro
E encheram de trigo nossos porões
Espantavam os ratos por perto
E com isso atraíram multidões

Mas somente eu sabia
Porque lia diferente a constelação
Lentamente a água subia
Silenciosamente proferiam a condenação

A primeira onda trouxe o terror
Destruir todos os barcos
E nem os maiores perdoou
Depois dela muitas mais
Desespero e lágrimas de sangue
Tumulto generalizado no cais

Um a um, foram todos os ídolos
Imponentes manifestos de pedra
Agora na condição de engolidos

Os reis que insistiram em ficar
Morreram pois não sabiam nadar

O povo acreditando em uma intervenção
Assistiu calado sua destruição

A última onda cobriu a areia
Suave como quem agradece a ceia
O que era cidade, agora é mar
Apenas pouparam a mim e a meu papiro
E deram-me a incumbência de documentar