Eu sou o cão, o bicho
Fui feito com capricho
Nem bom e nem ruim
Sou a conta do que há em mim
Estive fora um tempo
Me vesti com a cara de peixe morto
Mesmo estando vivo e aparente
Mesmo com meu falso olhar sorridente
Eu sou a lágrima que não corre
Aquela que fica para encarar
A mesma que deixa meu olho vermelho
Que te deixa perplexo sem sair do lugar
Sou a tristeza e a loucura
Sou nascido em noite escura
Sou a alegria e a vontade
E cada vez que morro volto com mais propriedade
Sou o pai, sou o filho
Sou o espírito nunca santo
Sou o bêbado, sou o louco
Sou a certeza e o engano
Desengano que aparece repentino
O sangue frio no olhar do menino
A arma que cospe a pólvora
O cálice que oferece a hóstia
Sou o poeta da rima em vão
O caminho para lugar algum
Sou a febre que rouba o sono
Sou desapego e abandono