Eu sabia que a água subiria
E eu via
Dia a dia
Corri, tentei falar
Mas nada aconteceu
Como sempre foi
Eles construíam
E eram gigantescas
Leões e portais
Figuras místicas em nosso cais
De um lado o inimigo era o deserto
De outro a ameaça era o mar
Mas eles não desconfiavam
Acreditaram no céu
Que nada tinha a contar
E fizeram pisos de ouro
E encheram de trigo nossos porões
Espantavam os ratos por perto
E com isso atraíram multidões
Mas somente eu sabia
Porque lia diferente a constelação
Lentamente a água subia
Silenciosamente proferiam a condenação
A primeira onda trouxe o terror
Destruir todos os barcos
E nem os maiores perdoou
Depois dela muitas mais
Desespero e lágrimas de sangue
Tumulto generalizado no cais
Um a um, foram todos os ídolos
Imponentes manifestos de pedra
Agora na condição de engolidos
Os reis que insistiram em ficar
Morreram pois não sabiam nadar
O povo acreditando em uma intervenção
Assistiu calado sua destruição
A última onda cobriu a areia
Suave como quem agradece a ceia
O que era cidade, agora é mar
Apenas pouparam a mim e a meu papiro
E deram-me a incumbência de documentar
E deram-me a incumbência de documentar